Dinheiro: uma convenção cada vez mais virtual



Há cerca de um ano, falamos aqui da Libra, a criptomoeda lançada por Mark Zuckerberg. Até agora não pegou, entretanto, as criptomoedas estão passando de um nicho monetário para a aceitação das autoridades financeiras mundiais.


O dinheiro é uma convenção, o resultado da capacidade de imaginação coletiva, como disse Yuval Harari em Sapiens, que também já citei nestas crônicas. Como temos assistido nas últimas décadas, a convenção que permite o uso da moeda como forma de pagamento tem evoluído à velocidade da informática. Para não ir até à pré-história, podemos dizer que ocorreu um episódio radical quando os bancos emissores deixaram de ser obrigados a pagar em ouro o valor das notas – a chamada “circulação forçada”. Assim, uma nota de, digamos, cinco libras, não obriga o emissor a entregar ouro no valor de cinco libras ao portador da nota. O “padrão ouro” funcionou, de uma forma ou de outra, até 1971, quando os Estados Unidos anunciaram que não converteriam dólares em ouro, transformando o dinheiro no que se chama uma “moeda fiduciária” ou, em linguagem não técnica, num valor simbólico. Embora os bancos emissores ainda mantenham reservas de ouro, são apenas uma pequena percentagem do dinheiro em circulação.


O outro episódio radical, que ocorreu antes do primeiro, foi a invenção do cartão de crédito, em 1928. Chamava-se então Charge Plate. O American Express, o cartão de crédito moderno, data de 1950. Com a generalização destes cartões – o Visa é de 1958 – caminhou-se rapidamente para o uso mais limitado das notas e moedas, que, como vimos, já não representavam o seu valor em ouro, ou outro material de referência.


A terceira “revolução”, que tão bem conhecemos, foi a das transferências digitais. Ou seja, já nem é preciso um objeto físico para pagar e receber; basta dar uma ordem pela Internet. Esse valor está ligado a um cartão de crédito, que por sua vez está ligado a uma conta bancária, que remete a um valor monetário não necessariamente representado em papel. Papel esse que, por sua vez, não está ligado a uma quantidade de metal. Cada vez mais, o dinheiro é a convenção que Harari explicou pela capacidade humana de aceitar coletivamente um conceito abstrato.

Claro que nos países árabes, nos circuitos criminosos e entre vários grupos limitados, o dinheiro em papel continua a ser preferido, sobretudo porque escapa ao controlo da polícia e do sistema bancário. Mas isso é outra história... O que tem sido uma constante é o controlo do sistema financeiro (entendendo como tal os bancos nacionais e particulares, e as instituições de crédito) pelas autoridades diversas.


E assim chegamos ao quarto nível: a criptomoeda. Surgiram várias propostas teóricas quanto à sua possibilidade nos anos 1990, mas o registro oficial da primeira, o Bitcoin, data de 2009, feito por uma criatura que não se sabe se existe ou não, Satoshi Nakamoto. E o que é a criptomoeda? Um sistema de pagamentos peer-to-peer, ou seja, que não passa por uma autoridade terceira. Uma vez que não tem existência material, não precisa de ser emitido e controlado por um banco, central ou particular. É como se eu comprasse um carro e dissesse ao vendedor: “Pago-te mil tiriris.” O vendedor usa esses mil tiriris para comprar outras coisas. Um sistema informático gigantesco registra cada uma dessas transações, mantendo a contabilidade de quantos tiriris cada um dos operadores possui. Uma vez que uma transação só existe se for registrada no sistema, parte-se do princípio de que esse registro é suficientemente válido. Claro que está sujeito a vigarices várias, mas pode argumentar que o dinheiro tradicional, já desmaterializado, também se presta a fraudes. E mesmo o dinheiro em papel podia ser (e é) falsificado.


O sucesso das criptomoedas, perceptível pelas enormes “quantias” que movimentam, e até pelo endosso de personalidades notáveis do mundo dos negócios – Mark Zuckerberg e, recentemente, Elon Musk – levou a que as autoridades monetárias oficiais começassem a considerar seriamente incluí-las no sistema financeiro internacional, sob pena de serem ultrapassadas pela prática e perderem o poder de controlo. O Banco da Inglaterra, entre outros, já anunciou que está considerando seriamente o assunto. Não é fácil, uma vez que o sistema “de pessoa a pessoa” não precisa duma conta num banco. A conta está no ciberespaço, ou seja, em mega computadores que funcionam automaticamente, sem supervisão.

Os especialistas que me perdoem as várias simplificações que aqui fiz, apenas para tornar a matéria compreensível aos não especialistas. Porque, de fato, mesmo os leigos têm de perceber o inexorável: o conceito de dinheiro é cada vez mais abstrato. Os tempos da pós-verdade são também os tempos do pós valor.