Como as cidades podem ser mais sustentáveis?



O maior rio que corta a cidade de São Paulo está visivelmente doente, cheira mau e é possível ver todo tipo de lixo boiando em ruas bordas. Muitos dos outros rios viraram ruas e avenidas. Os bairros que eram vilas tranquilas estão tendo suas casinhas derrubadas para a construção de prédios luxuosos. As regiões periféricas crescem desordenadamente sem estruturas básicas como esgoto e água potável.


E as pessoas que vivem na cidade trabalham, quase que incessantemente, imersas nas preocupações do dia a dia, e vão deixando a lembrança de que a cidade também é natureza cada vez mais distante. Lembro da fala do Ailton Krenak dizendo que em sua comunidade, o rio é seu parente, pois há essa conexão entre o indivíduo e cada elemento da Terra. Se reconectar não só com os rios, com as árvores e a natureza da cidade, mas principalmente com as pessoas, criando relações mais saudáveis, justas e equilibradas, pode ser a saída para os espaços urbanos, que estarão cada vez mais ameaçados perante as emergências sociais e climáticas.


Os problemas das grandes cidades são inúmeros: desigualdade, pobreza, falta de acesso, de inclusão, de oportunidades e por aí vai. As cidades, de forma geral, não são lugares justos e prósperos para todos, não consideram a natureza fundamental para o bem-estar e se desenvolvem alheias com a realidade da Terra. As cidades podem evidenciar as mazelas da nossa sociedade, mas também podem ser pensadas como espaços de inovação.

Conversei com a especialista em tecnologia urbana, Regina Magalhães, que defende: "De fato, o problema social é o mais grave. Mesmo havendo planos diretores em algumas cidades, precisamos de planos mais rápidos e definições ainda mais estratégicas do poder público. Acredito que a cultura e a tecnologia são ferramentas essenciais para a transformação das cidades em espaços mais diversos e sustentáveis."


Regina destaca a mobilidade elétrica, infraestrutura de transporte, automação de edifícios e a reestruturação da distribuição de água e energia como caminhos. Ela explica alguns exemplos: "Parte da população não tem acesso à água encanada e, ainda assim, 40% da água tratada é perdida na distribuição, mesmo em cidades grandes com infraestrutura. Lembrando que o custo de tratamento da água é altíssimo. Porém já existem tecnologias, inclusive digitais, que permitem que haja mais controle. Na construção dos edifícios, grandes responsáveis pela emissão de carbono e geração de resíduos, a digitalização e implementação de outras ferramentas tecnológicas podem apoiar no controle da temperatura, da luz, tornar os processos mais eficientes, reduzir custos e ainda melhorar a qualidade de vida."


A questão da mobilidade urbana, ponto de especialização de Regina, foi destacada: "Cidades pequenas e médias são carentes de transporte. Nas cidades grandes, o transporte público está concentrado em determinadas regiões e o sistema é caro e lento. Tecnologias poderiam reduzir as falhas como atrasos, substituir equipamentos antigos e tecnologias antigas, pois atualmente é possível transformar em um sistema inteligente, já que a mobilidade elétrica estima crescer e trazer melhorias como na qualidade do ar e da poluição sonora. No mundo, o transporte representa 27% das emissões de carbono, então é fundamental acelerarmos o processo de troca por energias mais limpas. O governo é peça fundamental, pois é preciso de muito incentivo para que os custos sejam acessíveis, mas infelizmente no Brasil estamos indo na contramão do mundo, pois há subsídios às indústrias do diesel e da gasolina."


"A cidade pode ser inacessível principalmente para as pessoas que estão em lugares mais vulneráveis, a infraestrutura não contribui colocando a população de baixa renda em locais mais distantes, o que gera impactos negativos. Precisamos de uma cidade ainda mais diversa e misturada, pois diversidade é riqueza de cultura. Precisamos de investimento do poder público e do setor privado, reconhecer o papel fundamental das organizações não governamentais, pois em áreas periféricas, são as ONGs que estão atuando em prol de mulheres, empreendedorismo e outras pautas urgentes. Portanto, é necessário que haja um trabalho integrado com outros atores da sociedade", diz Regina sobre as possíveis soluções.


Acredito que as cidades só se tornarão de fato mais sustentáveis quando o bem-estar de todos for a prioridade e a natureza for considerada a aliada principal. Para Regina, o pensamento que fica é esperançoso: "Uma cidade não se torna verde de um dia para o outro, são políticas públicas ao longo de décadas que trazem resultados positivos para o meio ambiente, desenvolvimento econômico e para a saúde da população, mas tenho esperança. A cultura e a vida cultural podem contribuir muito com este processo, pois precisamos de ações que promovam encontros, trocas, espaços de esporte e outras ações que incentivem as pessoas a viverem a cidade, além que a vida cultural é fundamental para a coletividade e vida social".


*Regina Magalhães é Doutora em Ciência Ambiental com formação executiva em transformação digital, diretora de segmento automotivo e infraestrutura de transportes na Schneider Electric América do Sul. Trabalha há mais de 20 anos com desenvolvimento de negócios, sustentabilidade e inovação. Foi especialista da International Finance Corporation e participa da Comissão de Inovação do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).